Vivemos um tempo em que a política é, demasiadas vezes, olhada com suspeita. Cresce a desconfiança nas instituições, empobrece o debate público e a impaciência perante respostas complexas abre espaço a soluções fáceis para problemas difíceis. Também nos Açores sentimos este clima, nas conversas do dia a dia, nas redes sociais, nas críticas legítimas, mas igualmente na tentação de desacreditar tudo e todos, confundindo o escrutínio necessário com descrença generalizada.
O desencanto é compreensível, quando a vida das pessoas não melhora, quando o custo de vida pesa mais do que o salário e quando a saúde, a habitação ou a mobilidade se tornam incertezas, a confiança fragiliza-se. Mas é justamente nestes momentos que a maturidade democrática se revela e é posta à prova.
É neste contexto que se celebrarão os 50 anos da Autonomia Político-Administrativa dos Açores e em que já não basta observar com distância ou esperar que a neutralidade resolva aquilo que só a responsabilidade pode enfrentar.
Vale a pena recordar, a propósito deste debate, que a Autonomia nasceu, precisamente, para reforçar essa maturidade. Foi uma resposta histórica a um sentimento de afastamento, garantindo que as decisões seriam tomadas mais perto das pessoas e adaptadas à realidade específica das nossas ilhas. Ao longo de cinco décadas, permitiu avanços significativos e consolidou um modelo democrático próprio, assente no compromisso e na responsabilidade. O populismo, pelo contrário, prospera quando tenta substituir esse esforço coletivo por atalhos impossíveis e por culpados fáceis.
Sabemos o modelo de democracia que queremos? Uma democracia que respeita as instituições, valoriza a dignidade humana, protege as minorias e reconhece a complexidade dos problemas ou uma democracia que transforma o medo em arma política e confunde liderança com provocação?
Num tempo de desconfiança, a política tem de reafirmar-se como um exercício de verdade e compromisso. Isso exige rejeitar a ideia cómoda de que “são todos iguais” e elevar o nível da exigência, tanto dos responsáveis públicos como de cada um de nós enquanto cidadãos.
Ao celebrarmos 50 anos de Autonomia, somos chamados não apenas a recordar o caminho percorrido, mas a renovar o compromisso de cuidar das pessoas com seriedade no presente e com visão para o futuro. Porque a Autonomia não é um dado adquirido, é uma construção permanente que depende, todos os dias, da qualidade da nossa vida democrática.